quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mera matéria

Chovia naquela manhã cinzenta e fria de dezembro. Ele se lembrava muito bem, era uma terça feira. Seus olhos castanhos, enevoados pelo luto, se haviam fixado no nome entalhado na lápide. O funeral tivera seu fim poucos momentos antes e as pessoas, munidas de guarda-chuvas negros, se afastavam em direção à saída do imenso cemitério. Com uma sensação de torpor a percorrê-lo, ele recebeu os pêsames de cada um que o cercou, na tentativa débil de amenizar um pouco o sofrimento de sua perda. Parentes, amigos, colegas ou apenas curiosos, ele não reparou em nenhum daqueles rostos familiares. Parecia alheio a tudo, era como se não estivesse acontecendo com ele. Quando as pessoas se foram, a solidão confortou-o melhor do que todos aquelas manifestações de solidariedade, que o obrigavam a murmurar um “obrigado” quase maquinal. Ficou sozinho com sua dor e seus pensamentos. Olhou ao redor e viu as lápides, blocos frios de mármore e concreto que marcavam o fim de diversas vidas humanas. Mais uma vez olhou para o túmulo daquele que lhe dera a vida vinte anos atrás. Subitamente fechou o guarda-chuvas, permitindo que as frias gotas que despencavam das nuvens se misturassem às lágrimas quentes que escorriam pelo seu rosto, fazendo com que seus olhos ardessem. Quem sabe a chuva lavasse de sua alma toda a agonia que se apoderara dele?
Morte: implacável, inesperada, traiçoeira, impiedosa. Eis a única certeza da vida, e mesmo assim nunca estamos devidamente preparados para enfrentá-la. Nossa morte é certa; todo o resto é mera especulação. Constantemente ele se surpreendia evitando pensar nela, mas isso não impediu que ela o separasse de alguém a quem amava. Ela podia se apresentar de várias formas. Dessa vez fora câncer, provavelmente o mal do século. Descoberta tardia, sintomas agravados, tratamento iniciado às pressas que, infelizmente não tivera tempo de surtir o efeito desejado. E lá se fora seu pai. Simples assim; sem conversa, sem negociações, sem misericórdia nem protestos. A vida seguira seu curso inalterável. E a morte também. Aquele a quem amava morrera para esta vida terrena, mas nascera para a eterna. Enxugou os olhos vermelhos com as costas das mãos e lembrou-se das palavras do sacerdote, pouco antes que se descesse o caixão à cova. “Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá.” Morrer para esta vida era nascer para a próxima, sem dor, nem tristeza nem agonia, e nem preocupações.
- Meu pai não morreu- balbuciou para si, confortado pela própria voz. - Ele vive em mim, na minha memória, em minhas atitudes. A morte não tem poder para destruir nosso amor.
Essa certeza reduziu a dor e lhe renovou a esperança. Muitas pessoas veriam aquela lápide, leriam aquele epitáfio, talvez se inclinassem e fizessem uma oração. Porém, o que elas não sabiam, é que o pai daquele jovem não se encontrava ali. Estava vivo e presente em cada conquista de seu filho, em cada olhar, em cada boa ação, em cada vez que o rapaz se ajoelhasse para orar. Seu pai estaria em cada lágrima vertida, seja de alegria ou tristeza. Estaria no vento que tocava seu rosto, no ar que ele respirava e nas pessoas que ele amava. Estaria em cada raio de sol que o aquecesse, em cada abraço, em cada sorriso. Isso se daria porque a matéria, ainda que finita, não importa quando duas almas estão realmente conectadas. Ele então se virou e começou a caminhar com passos lentos em direção à saída. Tinha muito o que fazer, muito a construir. Queria ter boas notícias para contar quando um dia se reencontrassem. Queria honrar a memória daquele que partira desejando que ele vivesse intensamente cada segundo como se fosse o último. Notou que já não sofria, paz e alívio se apoderavam dele. Naquela manhã sepultara apenas a tristeza e a dor da ausência. Seu pai não ficara naquela cova; ao contrário, partia com ele mais vivo do nunca, dentro de seu coração.

Por Danilo Alex da Silva

In Memoriam de Pacífico dos Santos.

Um comentário:

  1. Lidar com a dor da ausência é algo complicado. Por isso fiz o texto, para expressar minha maneira de ver as coisas. Agradeço o espaço cedido por meu grande amigo Cleberson, que gentilmente postou o texto em seu blog. Dedico esse texto ao meu amigo Wanderson Freitas Santos e peço orações para a alma de seu pai, Pacífico dos Santos.

    Danilo Alex da silva

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